Quais empresas podem desenvolver políticas de sustentabilidade?

Acredito que todas as empresas possam contribuir com compromisso ético e políticas de sustentabilidade para o desenvolvimento da sociedade. Mesmo empresas pequenas – que possam considerar-se limitadas para o desenvolvimento de ações deste tipo – podem contribuir muito. Nestes casos, acredito que o principal público a ser pensado são os seus profissionais. Por meio de políticas claras de seleção, contratação e desenvolvimento de carreiras, regidas pelo princípio da justiça, transparência e equidade, as empresas pequenas conseguem realizar um trabalho significativo no sentido de garantir para os trabalhadores não apenas o cumprimento de seus direitos trabalhistas – mesmo que em pleno século XXI isto ainda seja um desafio em vários setores da economia e em várias regiões brasileiras – mas também garantir dignidade, perspectiva real de crescimento e possibilidade de sonharem e assim, construírem uma qualidade de vida melhor para si e para suas famílias.

Empresas que não se comprometem com isto no mundo contemporâneo, estão fadadas a se estagnarem como “aquela que vende aquele produto” e a serem vistas com menos valor por uma geração que cresce respeitando o meio ambiente, a diversidade e tem a solidariedade e a tecnologia como sustentação. Além do sentimento de pertença que se cria entre os profissionais e que desempenha um papel fundamental nas organizações atuais: atrai capital humano de qualidade para a empresa, mobiliza profissionais e familiares em torno dos objetivos da empresa e traz visibilidade positiva e espontânea na mídia. E também no meio de comunicação mais eficiente que existe, o boca a boca, criando no imaginário coletivo uma imagem de empresa correta, responsável e que “faz mais do que sua obrigação”, contribuindo para o desenvolvimento sustentável no âmbito em que atua.

Mas é sempre bom lembrar que antes de mergulhar no desenvolvimento de políticas de sustentabilidade, os dirigentes e profissionais estratégicos de uma empresa devem se perguntar “Por que desejam tornar-se uma empresa sustentável?” (ou responsável, qualquer que seja o termo escolhido). Já começa daí o desafio maior: exercitar a transparência de dentro para fora da empresa, começando pelos “cabeças da organização”. Uma vez comprometidos com esta filosofia de gestão e de vida, eles darão o tom e as cores com as quais a sustentabilidade será construída continuamente no interior das organizações e formará redes para fora dela, que ajudarão a abraçar a qualidade de vida em todos os seus sentidos e direções. Respondendo à pergunta do título, podem desenvolver políticas de sustentabilidade, as empresas que decidam fazê-lo de forma consciente, transparente e profunda, como deve ser feita toda transformação que pretenda ser real e para melhor.

Ser sustentável sempre foi uma necessidade. Todas as espécies sabem disso e convivem com o ambiente ao seu redor em perfeita harmonia, não tirando mais do que precisam ou do que a natureza é capaz de repor em tempo hábil. O desafio, no caso dos humanos, é que precisamos de mais do que outras espécies para nos mantermos vivos no planeta Terra: temos mais demandas, consumimos mais, logo produzimos mais resíduos e lixo que todas as outras espécies. Também concordo com você sobre a necessidade de profissionais capacitados para lidar com este assunto. E como é um tema chamado “transversal”, cada área do conhecimento tem sua contribuição para dar e muito que aprender também. Na minha área, que é a comunicação, acredito que um dos maiores desafios vem sendo não se tornar uma marionete ou uma mera ferramenta do pior tipo de marketing, na mão de dirigentes e executivos que só vêm na sustentabilidade uma oportunidade de obter visibilidade e assim, o objetivo final: maiores lucros.

Muitas vezes, diante de ações pouco significativas, da falta de uma política bem construída, do desconhecimento, do desinteresse e de ideias mal fundamentadas sobre o que é ser sustentável, profissionais de Comunicação são pressionados a transformar projetos vazios de sentido em uma grande campanha de comunicação que gere alto impacto na sociedade. É o chamado greenwaching. Não adianta! Contratar os melhores profissionais, na melhor agência, para produzir o melhor vídeo, o melhor slogan, a melhor garota propaganda, a melhor campanha de marketing viral ou qualquer outra estratégia não vale nada se não há conteúdo, se não há realidade por traz de palavras, imagens e sons bonitos. Mais dia ou menos dia, a realidade vem à tona. Seja porque algo falso foi desmascarado, seja porque os próprios funcionários não acreditam na campanha “inventada” de que a empresa é sustentável, seja porque hoje a informação é livre e corre muito rápido. Por isto, antes de pensar em como divulgar o que está fazendo sobre Sustentabilidade, a empresa deve se preocupar em obter resultados de suas políticas e práticas adotadas.

Este artigo foi publicado no Fórum de Debates da Catho, em partes, em fevereiro de 2010.

mq     Rua Aimorés, 612 - Funcionários. CEP: 30140-070 - Belo Horizonte - Minas Gerais. Tel: (31) 8811-6130.