De Sócrates às startups: em busca do propósito e do auto-conhecimento

Há muito tempo entende-se que o auto-conhecimento é importante para o desenvolvimento do ser humano. Sócrates (470-399 a.C) com o “conhece-se te a ti mesmo” e sua Maiêutica, já procurava a verdade no interior do Homem como caminho para a prática do bem e da virtude. Levava seus interlocutores a duvidar de seu próprio conhecimento e, em seguida, revelava-os e levava-os a conceber, a partir de si mesmos, uma nova ideia ou opinião sobre o assunto em questão, o “parto intelectual”. E ele fazia isto por meio de perguntas, os chamados diálogos socráticos.

O tempo passou. Mas na era do Conhecimento ou das Redes em que estamos, ainda são as perguntas que movem o mundo. Não as respostas. As respostas calam, consentem, encerram, fecham questão. Refletir com frequência sobre questões como quem sou, quais os meus sonhos, o que me realiza, o que espero de mim, da vida, do mundo, quais são meus sonhos mais profundos não é fácil, mas não faz mal a ninguém. Ao contrário, abre infinitas possibilidades para o entendimento de si e do mundo e aproxima a pessoa de uma verdade mais profunda e muito particular.

“As perguntas funcionam como convites generosos à criatividade,
trazendo à tona aquilo que ainda não existe”. (Marilee Goldberg, The Art of the Question)

Especialmente para um ser em busca do aprendizado, da criação de algo inovador – que é o ser “startupeiro” – perguntar é tão ou mais importante que responder. Manter o hábito de perguntar a si mesmo, com freqüência, sobre o que te move, qual o seu propósito ao iniciar um empreendimento, quem precisa do que você quer oferecer, qual o problema que você está solucionando com seu produto… é um treino para o empreendedor e abrirá portas para um entendimento profundo e consistente de si mesmo e do negócio. Traz consciência e força ao empreendedor jovem, tornando sua visão aguçada e seu potencial infinito.

Foi isto que percebi ao longo dos últimos anos atuando próxima a empreendedores de base tecnológica nas áreas de biotecnologia, saúde, química, tecnologia de informação, negócios sustentáveis… Seja qual for o motivo pessoal e existencial que os motiva a empreender, existe algo que os une: a busca de realização. Seja ela traduzida por reconhecimento, retorno financeiro, capacidade de influenciar, orgulho de ser pioneiro, ou pela vontade de resolver um problema da sociedade e do mercado como forma de mudar um pouco o mundo a sua volta. O brilho nos olhos de cada jovem empreendedor que conheci não tem preço e se deve à busca pela realização de um propósito.

autoconhecimentoEles podem descobrir daqui a algum tempo que querem mesmo é fazer um concurso público ou trabalhar para grandes empresas? Sim. Porque não? O ser humano é complexo e imprevisível. Mas arrisco um palpite, a partir do que vivi nos últimos anos: a escolha por empreender é uma escolha quase sem volta. Caso contrário, fica sempre aquele gostinho de quero mais e uma pulga atrás da orelha, ou melhor, um grilo falante gritando: “assim que eu puder, vou levar adiante aquela ideia, aquele projeto… ai que vontade de sentir aquela adrenalina de novo! Ai que vontade de ter algo meu…”

Os empreendedores que conheci são movidos por propósitos profundos e querem mais da vida. Eles não precisam bater ponto, mas também não têm horário para parar de trabalhar. Eles querem ficar ricos, mas não têm preguiça e trabalham muito. Eles sonham alto, mas elevam as expectativas e cobranças sobre si próprios às alturas. Eles aprendem rápido, mas estudam muito e estão sempre em busca do novo. Eles trabalham atrás de computadores? Sim. Mas são ótimos de papo e de vender seu peixe em qualquer 5 minutos com os quais sejam presenteados.

Não significa que não vivam dúvidas, momentos de crise e até de incrível drama: amigos, família, parceiros e filhos cobram atenção. E o tempo e energia dedicados ao trabalho podem demorar a se converter em conforto. Eles vivem com paixão a escolha que fizeram. E me orgulho de tê-los conhecido.

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Me inspirei neles e agora também entro nesta dança de empreender. Por que comparar o empreendedorismo a uma dança e não a um jogo? Porque vi no dia a dia de empreendedores nascentes que conheci no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Brasília, uma disposição muito maior em colaborar do que em competir. E a dança tem como pré-requisito um parceiro ou “partner”. Ela exige harmonia, sintonia e um compromisso rigorosíssimo com a alegria. Assisti a este fenômeno do empreendedorismo-colaborativo nas três edições do Startup Farm das quais participei. E hoje estou aqui dançando a dança de “descobrir quem sou e de que forma meu trabalho pode me ajudar a construir algo de relevância para mim e para outros como eu”. Em busca de propósito na vida e no trabalho. E não é tudo a mesma coisa?

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