Engravidar: um ato de fé

Já tem 21 semanas e três dias, ou quatro meses para os que não estão acostumados com essa forma de contar. Sim, estou grávida. De uma menina. Seu nome será Ana Clara. E porque não contei ainda? Bom, é disso que queria falar…

Esses dias estava me perguntando: Por que não saí contando para todo mundo logo que eu soube? Por que não coloquei uma faixa na testa dizendo: “Estou grávida!?” Por que ainda não postei nada publicamente nas redes sociais, de forma que os amigos próximos e também os mais distantes pudessem saber? Por que não declarei esse meu novo amor para o mundo como fiz quando me casei?

Me lembro bem que quando marquei a data do casamento eu queria mais que todo mundo soubesse. Algumas pessoas próximas até me disseram para não sair espalhando assim, porque sempre tem gente invejosa, etc. Mas eu não estava nem aí. A alegria era tanta que não cabia dentro de mim e eu precisava extravasar contando para todo mundo, mostrando meu sorriso, falando dos planos, de como estava me sentindo e tudo que essa decisão envolvia. Quando me casei, não foi uma decisão fácil, apesar de óbvia. Era óbvia porque eu e Michel já namorávamos há muitos anos, já éramos noivos há dois e todo mundo sabia que a gente era doido para se casar. Mas não era fácil devido às circunstâncias profissionais e econômicas que a gente vivia.

Mas em 2012 eu tinha uma reserva financeira que me permitia alçar alguns voos. Estava começando minha empresa, trabalhava para mim, fazendo o que gostava e ainda estava ganhando mais do que sempre havia ganhado. Isso tudo me dava uma sensação de poder absurda, uma força, uma coragem inacreditáveis: algum recurso financeiro + paixão pelo trabalho + a possibilidade de ver o meu grande sonho se realizar! Eu fui, entrei de cabeça sem titubear. Às vezes ficava com medo? Sim. Pensava em tudo de negativo que poderia acontecer? Sim. Mas sustentei a decisão até o fim, baseada na confiança em mim mesma, na crença de que a vida sempre nos leva para o melhor, para o crescimento, para a evolução, para cima, mas principalmente em Deus, no inexplicável, no universo, que conspiraria a meu favor. Afinal, era mais que merecido! Até que enfim, a gente iria se casar. Era muito amor e muita história para morrer na praia. Não existia, há muito tempo, a vida de um sem o outro. E graças a Deus, aos nossos esforços e à nossa família, tem sido uma longa e deliciosa lua de mel! Cheia de desafios, muito diálogo, concessões e ajustes. Mas também cheia de muito amor e reciprocidade.

Então, voltamos à pergunta: Por que agora que estou grávida, não conto isso ao mundo com a mesma paixão e coragem? O primeiro motivo é que não me sinto na obrigação de contar tudo para todo mundo mais. Isso vem com o tempo e a maturidade que o tempo traz. Também não tenho a necessidade de expor esse fato nas mídias sociais para que ele se torne real, do tipo “se não está nas redes, não existe”. O outro motivo é que nas mídias sociais estamos expostos à pessoas estranhas e à pessoas conhecidas, porém com diferentes níveis de relacionamento, inclusive profissionais. E nem todas essas pessoas têm interesse legítimo sobre minha vida pessoal e, especialmente, sobre minha gravidez.

Mas o principal motivo é porque eu tinha uma sensação de que algumas pessoas, além de não se interessarem, poderiam até não receber bem a notícia. Eu fazia na minha cabeça a cena em que eu contava muito feliz sobre a gravidez e a pessoa do outro lado fazia algum comentário desagradável, era fria, indiferente. E se fosse alguém do ambiente profissional, eu achava que contar sobre a gravidez poderia afastar oportunidades de trabalho sob o argumento de “ela em breve não estará mais disponível para trabalhar, então melhor nem começar qualquer serviço”. E no presente momento, o que mais preciso é de trabalho. Afinal, agora são três bocas, né? E muito mais despesas. E eu nunca deixei nada que comecei pela metade, nem deixei cliente na mão. Não seria agora que eu descuidaria da confiança que construí até hoje. No meu caso, fui abençoada com muita saúde e força de vontade e pretendo continuar trabalhando até a Ana Clara nascer e pretendo voltar antes mesmo dos quatro meses de licença. Afinal, sou uma empreendedora. Mas estamos num mundo machista, que ainda entende que a mulher grávida pode ser menos capaz, ter limitações, ou restrições para trabalhar. E num mundo muito incerto, que Zygmunt Bauman chamou de “líquido”.

Então, por que contar?

Hoje, Dia Internacional das Mulheres, resolvi contar por dois motivos: 1) uma amiga recentemente me disse que “Quando vem uma nova vida, há uma força muito grande de mobilização das pessoas em ajudar aquela família, aquele casal. Contar para as pessoas pode ser mobilizador, para o universo ajudar vocês”. Eu já tinha ouvido isso de algumas pessoas, normalmente junto com a frase “O bebê vem com o pão debaixo do braço”. Confesso que na prática ainda não entendi como é essa história do pão (rsrrsrsrsrs), mas resolvi pagar para ver.

Este post, na verdade, é um ato de fé, um ato de amor, estou me lançando no abismo e contando publicamente os meus desafios e dilemas. Como jornalista e pessoa que adora escrever, mas raramente mostra seus próprios textos para os outros, recentemente também me impus um desafio – como se já não houvessem desafios suficientes – de expor mais minha escrita para mundo e descobrir no que vai dar. Uma carta para uma amiga, um cartão para outra e assim comecei. Hoje dei um salto e estou aqui falando de mim para aproximadamente 500 amigos de Facebook e para onde mais este texto chegar.

É um ato de fé porque é em esforço de acreditar em algo que eu quero acreditar, mas que tem sido difícil em meio a um mundo de incertezas. Quero acreditar no futuro, no vitória do bem sobre o mal, na paz, em uma vida com menos medos, mais possibilidade de sonhar e realizar sonhos, mais colaboração, mais afeto, mais prosperidade para mim e para todos ao meu redor.

Mas também é uma experiência, uma tentativa de transformar minhas angústias em algo maior, mais forte, mais belo, transformador. E quem, sabe, até servir para que outras que estejam passando por algo semelhante, encontrem alguma identificação, algum conforto.

Mundo líquido x gravidez concreta

Muitos casais passam por isso, eu sei. Ficar pensando: “Que mundo é esse no qual vou colocar um filho? Ele merece viver nesse mundo, tão duro?” “Como vou criar um ser humano nesse mundo no qual até eu tenho dificuldades de ter paz e sucesso?” Analisando de forma racional, decidi engravidar num cenário marcado por inseguranças políticas e econômicas no país e no mundo. Em todos os casais de amigos os sinais explodem: desemprego, subemprego, empreendedorismo por necessidade, alguns voltando a morar com os pais, dívidas… Até pensar em sair do Brasil – como se essa fosse a solução – ficou mais difícil, pois que lugar no mundo seria realmente tranquilo e aceitaria de bom grado imigrantes latinos sem dinheiro? Do ponto de vista de saúde, o Zika vírus já marcou uma geração de forma definitiva com medo e doença. São milhares de crianças cujos destinos foram selados pela falta de interesse político pela solução do problema maior, que é a educação e a saúde no Brasil. Do ponto de vista social e cultural, ao lado do crescimento dos movimentos pela diversidade de gênero, raça e credo, convive o crescimento de uma direita estúpida, cega, mas com muito poder de comunicação, que decide reduzir investimentos em educação e saúde, relegar a terceira idade à indigência e continua nos roubando descaradamente. Que quer proteger fronteiras e arma a sociedade com ódio a tudo que representar “o outro”.

Mas avaliar se o mundo contemporâneo é muito pior ou muito melhor do que em gerações passadas é muito difícil. Nossa percepção do mundo é muito relativa ao lugar social onde estamos, nosso contexto particular, história, valores, e momento atual. Também pensei, de forma heroica e idealista, que “Estou colocando no mundo uma pessoa que não será apenas vítima, mas que também terá o poder de fazer esse mundo diferente e melhor!”

Engravidar é um ato de fé

E depois de muito pensar sobre isso, cheguei à conclusão que era melhor parar de pensar. Decidi não ser racional. Assim como na época do casamento, essa decisão não pode ser baseada na razão, mas sim guiada pelo profundo sentimento de que é preciso, é preciso ser, é preciso ser feliz, ou pelo menos continuar tentando. Há uma pungência, uma força maior, um algo que nos move independentemente do contexto, e não podemos deixar que o contexto se sobreponha ao que a alma grita!

Então, quando foi nossa hora e momento – e quando Deus achou que era para ser – parei de pensar e fui viver essa experiência. Você pode até não ser religiosa, mas quando se trata de gravidez, eu percebi que muito além da biologia, há muito mistério envolvido na concepção e gestação de outro ser (mais isso seria tema para muitos outros artigos). Tinha 34 anos quando iniciei minha jornada para engravidar. Com o mínimo de planejamento, porque eu sou uma pessoa que adora sonhar, planejar, preparar, e porque é uma grande responsabilidade colocar outra vida nesse mundo, não me importa quem diga o contrário. Apartamento maior, exames e vacinas em dia, precauções contra a Zika sempre em mente e… cinco meses depois, estávamos nós diante de um exame de farmácia, a cena padrão dos casais nessa fase da vida. Foram apenas cinco meses entre tentar e conseguir, mas essa caminhada fez parte da nossa preparação para sermos pais. Pensar, planejar, querer, se informar, sentir uma série de coisas, reafirmar nosso amor de casal, ficar fora do ar com a simples notícia de que “sim, eu ovulo normalmente”! Tudo isso me preparou para o dia em que o exame deu positivo e eu pude, junto com meu marido, abraçar essa notícia com toda força e amor. “Estado de graça” é a única expressão que posso usar (sinto muito para os que não acreditam).

E hoje, dia simbólico da luta pelos direitos das mulheres, coloco aqui minhas aflições

Como é difícil ser mãe e seguir fazendo qualquer coisa que se fazia antes do mesmo jeito! Não estou falando apenas de papéis sociais nos quais estamos sempre nos dividindo, mas do ser em si. Como é difícil estar cem por cento em mim e estar no mundo ao mesmo tempo. Sim, percebo que minha energia vital está no processo de gravidez e maternidade desde o ano passado. Não há como esquecer desse fato nem por um segundo. Porque não é um fato apenas, é uma condição, um estado de espírito. É como se fosse um filtro que você coloca na foto do instagram. Mas um filtro que está em tudo a partir de agora.

No entanto, mesmo com toda a graça e poesia desse momento, impõe-se a concretude da vida. Para que haja condições dignas e também algum conforto para a criança que vem ao mundo e para nós, como família, é preciso ser práticos. É preciso pagar as contas. É preciso trabalhar. É preciso continuar sendo útil para o mundo. E como é difícil ir para o mundo me vender nesse momento! Precificar serviços, criar conteúdos, novas parcerias, negociar… Assumo, tem sido mais difícil do que já é normalmente.

Mas meu post de hoje é também um ato de fé. É assumir isso, essas dificuldades e preocupações e não tentar passar a ideia de que nada mudou, que sou a mesma pessoa, fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito. De fato, não é possível. Que o mundo saiba que tudo mudou para mim e vai mudar ainda mais. Que eu não sou a mesma pessoa e que de agora em diante, farei as coisas de forma diferente. Inclusive no meu trabalho, que é parte importante da minha vida, pois me move, me traz senso de utilidade, pertencimento, me traz pessoas incríveis e muito aprendizado. Que sou uma pessoa apaixonada, por isso vou continuar fazendo meu trabalho com paixão, mesmo quando isso me traz certa dor de perda, vez em quando, por um parceiro ou cliente que se vai. Mas minha vida não é apenas meu trabalho. Meu amor mesmo está em outro lugar, meu amor está aqui dentro, esperando para nascer. E mesmo sem vir ao mundo já é forte o suficiente para me trazer até aqui, nesse momento. Então, é isso: meu ato de fé de hoje é aceitar e assumir que tudo mudou. É me desapegar das ideias de mim, da vida e do mundo que tive até hoje. E acolher o novo, o incerto, o desconhecido, o mistério e a graça. Fazer a minha parte muito bem feita e acreditar que tudo será diferente, mas bem melhor! 

Se você compartilha desses sentimentos, vamos nos conhecer. Podemos nos ajudar pessoalmente ou profissionalmente.

 

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